Resenha · 11/10/2026
O detector no júri
Pedro Doria e Cora Rónai conversam sobre o romance de Thélyson Orélien retirado do Goncourt por suspeita de IA. Cora separa plágio de ferramenta, Pedro lembra que um humano tem que assinar, e a conversa deixa para a crítica a pergunta sobre o que faz um estilo soar humano.
No Pedro+Cora de 29 de setembro, programa do canal Meio, Pedro Doria e Cora Rónai conversam por 36 minutos a partir de um caso francês: o romance que a Académie Goncourt tirou da sua primeira lista por suspeita de inteligência artificial. Cora propõe ali uma distinção que ajuda a ler o caso inteiro.
Meio · YouTube. A revista embute o original; não o substitui.
Para quem chega agora: quatro dias antes do programa, a Académie havia retirado C’était ça ou mourir, primeiro romance do haitiano-quebequense Thélyson Orélien, publicado pela Grasset em agosto. Em 21 de setembro, dia em que o livro recebeu o prêmio do romance Fnac, uma conta anônima no X, «Balance ton Claude», publicou trechos submetidos ao detector Pangram e concluiu que o romance fora escrito «quase integralmente» por IA (France Inter). Na quarta-feira, 23, vieram acusações de plágio, em pelo menos um conto e alguns artigos que Orélien publicara no Canadá havia mais de dez anos (franceinfo). O comunicado da Académie, de 25 de setembro, cita primeiro «os plágios de que o autor se tornou culpado ao longo do tempo» e depois o «resultado convergente» de análises segundo as quais o livro é, «com toda probabilidade, em larga medida produto de uma inteligência artificial».
A distinção de Cora é esta. Plágio é cópia deliberada, «defeito de caráter», e justifica a exclusão; IA é ferramenta, e recusar um livro por usá-la vai parecer, daqui a alguns anos, tão estranho quanto proibir calculadora em prova de matemática. A frase separa dois problemas que no caso chegaram juntos, na mesma semana. Para sustentá-la, os dois percorrem a série das tecnologias que assustaram antes de serem absorvidas: o Sócrates do Fedro contra a escrita, a fotografia contra a pintura, a máquina de escrever contra a caligrafia, Bob Dylan de guitarra elétrica num festival de folk.
Pedro acrescenta um critério que vem da redação de jornal: «um humano tem que assinar». Alguém responde pelo que está no texto, inclusive pelo plágio que a máquina comete sem que o autor saiba. É um critério de responsabilidade, e vale com ou sem detector. Os dois, que escrevem por ofício, concordam ainda num ponto que o debate público costuma ignorar: fazer um texto bom com IA dá mais trabalho do que escrevê-lo direto.
O caso ocupa os primeiros doze minutos e volta por uns cinco perto da marca dos 25. No resto, a conversa segue solta, como o formato permite: matemática, Bandeira e João Cabral, os retratos que Pedro anima com IA (Machado de Assis, um tio-bisavô morto de tuberculose aos 26 anos) e o edema de córnea que impede Cora de ler. Os retratos devolvem o tema por outro lado: a ferramenta que levanta suspeita sobre um romance serve a Pedro para dar movimento ao rosto de um parente.
Para a turma, a conversa abre duas frentes. A primeira é a prova. Segundo a France Culture, a ferramenta de verificação que a AFP ajudou a criar classificou os trechos divulgados como «muito provavelmente escritos por um humano», e outros sete detectores chegaram a conclusões divergentes. Segundo Les Lettres Libres, o Le Monde repetiu o teste do Pangram em mais da metade do romance e viu grande parte do texto classificada como artificial, enquanto os livros de comparação saíam como humanos. Um detector dá uma probabilidade sobre um estilo; a história de um manuscrito que, diz o autor, começou no outono de 2017 continua por reconstituir.
A segunda frente é o estilo, onde o caso encontra a crítica literária. Orélien respondeu que as imagens, as repetições e o ritmo apontados como suspeitos vêm da tradição haitiana e caribenha em que sua voz se formou, e perguntou se Césaire ou Jacques Stephen Alexis também seriam suspeitos. Para uma disciplina sobre cânones, a pergunta que fica é que estilo uma máquina treinada com determinado corpus aprende a reconhecer como humano.
O critério do programa é o valor: «é bom ou não é?», e, embora seja subjetivo, «a gente sabe quando vê um bom livro». O da Académie é a procedência: o prêmio existe, diz o comunicado, para «promover e coroar a literatura escrita por mulheres e homens». A conversa de Pedro e Cora ajuda a separar os dois, e é com eles que a turma pode voltar ao caso.