Cânones da crítica internacional UFES · Departamento de Letras · T01 · 2026/2

00Edição zero · agosto a dezembro de 2026

Prêmios · Argentina

Premio Fundación Medifé Filba 2026

Prêmio argentino para o melhor romance publicado no ano anterior, o Medifé Filba anunciou em 29 de julho uma lista larga de dez títulos. A lista corta de cinco sai em outubro e a vencedora, em novembro.

Lista larga anunciada em 29/07 · lista corta em outubro · vencedora em novembro · lista oficial

Há sete anos a Fundación Filba, com a Fundación Medifé, distingue o melhor romance argentino publicado no ano anterior; a obra vencedora de 2026 receberá 6 milhões de pesos. Concorreram 280 romances, 60% a mais que em 2025, lançados por 160 editoras de 11 províncias, número que os organizadores leram como sinal de “uma literatura que resiste” num momento difícil para o mercado editorial. O júri reúne Gabriela Cabezón Cámara, vencedora do próprio prêmio com Las niñas del naranjel, Leila Guerriero e Alan Pauls, e escolhe a lista corta em outubro e a vencedora em novembro. A apresentação oficial insiste no cruzamento de gêneros: horror ecológico, weird, policial, western, ensaio e autobiografia aparecem combinados em pelo menos cinco dos dez títulos. Três livros, os de Colacrai, Battistón e Ferrari, tomam a própria literatura como matéria.

Lista larga

Sebastián Hacher, Cicuta para los oídos

Eterna Cadencia, 2025.

Segundo o comunicado da Fundación Filba, é um romance em que a vida idealizada na natureza vira pesadelo, construído como “um tratado sobre o silêncio, o ruído” e a convivência por vezes incômoda com o outro, seja humano, animal ou selvagem. A elDiarioAR o agrupa com Kurepa entre os dois títulos da lista passados em meio à natureza. A natureza que ameaça aproxima este livro do de Chuit Roganovich, que a organização descreve como terror ecológico. Fonte

Pablo Colacrai, El paraguas de Chéjov

Pre-Textos, 2025.

O romance corre em três linhas paralelas, a autobiográfica, a ensaística e a ficcional, para pensar o vínculo entre escrita, dor e reparação, segundo a Fundación Filba. O texto oficial diz que o livro se pergunta pelo sentido de continuar escrevendo quando tudo ao redor desmorona. A elDiarioAR o lê ao lado de La madre de Beckett tenía un burro: dois livros fragmentários que fazem da literatura seu objeto de investigação. Fonte

Romina Paula, Hija biográfica

Entropía, 2025.

Narrado por uma voz adolescente, com uma paisagem serrana em primeiro plano, o romance trabalha a relação entre o biográfico e o biológico, segundo a Fundación Filba, e interroga que elementos e que vidas compõem uma família. A organização fala do “relato compartilhado” que constrói cada um de nós. A Entropía, editora do livro, já venceu o prêmio em 2023 com El ojo de Goliat, de Diego Muzzio. Fonte

Marina Yuszczuk, Historia natural

Blatt & Ríos, 2025.

Quem narra é Virginia Moreno, filha do explorador Francisco Moreno, o Perito Moreno. Segundo a Fundación Filba, é uma ficção histórica com traços góticos sobre a origem do país, a violência e as obsessões da ciência positivista do século XIX. A elDiarioAR acrescenta que o enredo parte da criação do Museu de Ciências Naturais de La Plata e cruza taxidermistas, achados para o acervo e o colecionismo desmedido de um pai visto pela filha que tenta chamar sua atenção. O romance revisita uma figura fundadora da ciência e do território argentinos pelo ponto de vista de quem ficou à margem do relato oficial, a filha. Fonte

Martín Sancia Kawamichi, Kurepa

La Crujía, 2025.

Romance ambientado “no coração da geografia paraguaia”, que se alimenta do folclore, da mitologia guarani e de uma exuberância que beira o alucinatório e o monstruoso, segundo a Fundación Filba. A organização destaca a carga de estranheza e tensão do relato. Um romance argentino situado no Paraguai e construído sobre mitologia guarani alarga o mapa do que a lista reconhece como literatura nacional. Fonte

Matías Battistón, La madre de Beckett tenía un burro

Emecé, 2025.

Primeiro livro assinado por Battistón, tradutor para o espanhol de Beckett, Édouard Levé, John Cage, Roland Barthes, Virginia Woolf, Fernando Pessoa e Gertrude Stein, entre outros, segundo a elDiarioAR. A Fundación Filba descreve um romance que leva ao terreno da ficção o ensaio erudito e a prosa biográfica, com muito humor, para pensar a tensão entre escrita e tradução. O jornal conta que no livro se cruzam experiências do autor, enredos de outros tradutores e cenas da vida de Beckett. O tradutor, figura em geral invisível na circulação do cânone, passa aqui a ser o assunto. Fonte

María Moreno, La merma

Literatura Random House, 2025.

Segundo a contracapa citada pela elDiarioAR, a autora observa o próprio corpo e o dos outros enquanto tenta se recuperar de um AVC que paralisou seu lado direito, do rosto aos pés, entre a UTI e uma clínica cercada pela covid. A Fundación Filba fala de um “texto manifesto sobre um corpo doente” em que convivem as facetas de Moreno: escritora, cronista, biógrafa, poeta e ensaísta. A presença de uma cronista e ensaísta numa lista de romances mostra a elasticidade que o prêmio dá à categoria, e a própria organização diz que a personagem “desafia as bordas da literatura”. Fonte

Tomás Downey, López López

Fiordo, 2025.

Primeiro romance de Downey, descrito pela Fundación Filba como uma épica bélica: dois exércitos misteriosos, o Negro e o Laranja, travam uma guerra entre povos vizinhos. López, soldado das fileiras negras, escapa de um fuzilamento, veste o uniforme de um morto do lado laranja que também se chama López e se junta à tropa inimiga, conta a elDiarioAR. O duplo e a troca de identidade são o eixo destacado pelos organizadores. A Fiordo publicou La ficción del ahorro, de Carmen M. Cáceres, vencedora da edição de 2025. Fonte

Kike Ferrari, Si estás leyendo esto

Fondo de Cultura Económica, 2025.

O romance parte do episódio, contado em várias versões, em que Borges, em meados dos anos 1930, teria comprado um livro, uma garrafa de genebra e uma arma para se matar num quarto de hotel. Segundo a elDiarioAR, a trama segue o destino dessa arma ao longo das décadas, perseguida por Adrián e Paula, funcionários da Biblioteca Nacional, com a ajuda de uma dupla de detetives particulares. A Fundación Filba destaca a convivência de policial noir, western, terror e fantástico nos subsolos da Biblioteca e as dezenas de homenagens à literatura argentina. Um romance de aventura que tem Borges como objeto encena a relação da ficção argentina com sua figura mais canonizada. Fonte

Roberto Chuit Roganovich, Si sintieras bajo los pies las estructuras mayores

Alfaguara, 2025.

O livro venceu o Premio Clarín de Novela em 2024 e agora disputa o Medifé Filba, fato que o Clarín pôs no título da notícia sobre a lista larga. Segundo a Fundación Filba, weird, terror ecológico, ficção científica e especulação se misturam numa ficção histórica montada como um mosaico de testemunhos que atravessam os séculos. É um exemplo de como os prêmios se encadeiam: um romance lançado por um concurso promovido por jornal passa a concorrer num prêmio de fundação. Fonte