Cânones da crítica internacional UFES · Departamento de Letras · T01 · 2026/2

00Edição zero · agosto a dezembro de 2026

Prêmios · França

Prix Goncourt 2026

O prêmio mais cobiçado da literatura francesa tem hoje uma primeira seleção de 15 romances, depois que a Académie Goncourt excluiu um título por suspeita de uso de inteligência artificial. A segunda lista sai em 6 de outubro.

1ª seleção anunciada em 02/09 (15 títulos após exclusão em 25/09) · 2ª seleção em 06/10 · vencedor em 03/11 · lista oficial

O Goncourt é concedido pela Académie Goncourt, presidida desde maio de 2024 por Philippe Claudel, e rende ao vencedor um cheque simbólico de dez euros; o efeito está nas livrarias, e segundo dados da NielsenIQ divulgados pela Livres Hebdo o vencedor de 2025, La maison vide, de Laurent Mauvignier, passou de 630 mil exemplares. A primeira seleção de 2026, anunciada em 2 de setembro, tinha 16 romances, nove de homens e sete de mulheres. Em 25 de setembro a Académie retirou da lista C’était ça ou mourir, de Thélyson Orélien (Grasset), alegando plágios do autor e análises de pesquisadores e jornalistas segundo as quais o livro seria “muito provavelmente, em larga medida, o produto de uma inteligência artificial”; o comunicado diz que o prêmio existe para coroar “a literatura escrita por mulheres e homens”. Pelo calendário oficial, a lista cai para oito títulos em 6 de outubro e para quatro finalistas em 27 de outubro, e o vencedor é anunciado em 3 de novembro, no restaurante Drouant, em Paris. Entre as editoras, a Gallimard aparece com quatro títulos, ao lado de casas pequenas como a Maurice Nadeau.

Primeira seleção

Boris Bergmann, Minotaure

Albin Michel, 2026.

Romance autobiográfico em que Bergmann, nascido em 1992, conta a busca pelo pai, um psiquiatra que partiu antes de seu nascimento, e o encontro tenso que ele forçou em Bordeaux aos 22 anos. A Paris Match descreve um livro de vários fios: a procura dos pais, o retrato da associação Aides, de luta contra a aids, onde os pais do autor se conheceram, e uma homenagem à mãe. Entre os homens gays da associação o menino encontrou pais substitutos. Segundo a revista, o mito do Minotauro serve ao autor para passar do íntimo ao universal. Fonte

Louise Chennevière, Faire la peau

P.O.L, 2026.

O livro acompanha Louise, que depois de trinta anos de humilhações decide romper com a mãe. Em entrevista à RTS, a autora, que também é musicista e cantora, disse que a violência materna segue entre as mais tabus por causa do “fantasma do amor materno absoluto” e que tratar dela é delicado para uma feminista. A emissora suíça explica o duplo sentido do título: “fazer a pele” é matar simbolicamente a mãe e também fazer para si uma pele própria. O romance desloca para a relação entre mãe e filha a investigação sobre violência e corpo que, segundo a RTS, atravessa a obra de Chennevière. Fonte

Ananda Devi, Chronique d’un royaume perdu

Grasset, 2026.

Saga ambientada em Le Bouchon, aldeia isolada da ilha Maurício, terra natal da autora, que acompanha quatro gerações desde a escravidão, entre a família branca dos Dumontais, donos de uma usina de açúcar, e a linhagem dos Félicité. O crítico Jean-Remi Barland, do La Provence, chamou o livro de uma espécie de Cem anos de solidão em versão mauriciana. O romance também foi selecionado para os prêmios Renaudot e Giono. Para o curso, a comparação mostra a crítica francesa lendo uma autora mauriciana pela régua de um clássico latino-americano. Fonte

Sonia Devillers, Le fabuleux piano

Robert Laffont, 2026.

Procurando o piano que a avó deixou em Bucareste quando a família foi obrigada a sair da Romênia, em 1961, Devillers encontra outro instrumento desaparecido: um Érard de concerto, número 68037, da família Enoch, editores de música em Paris, levado pelos nazistas em 1943 e nunca recuperado. A ActuaLitté descreve o livro como um “récit-enquête” (relato-investigação) documentado sobre objetos espoliados, mortos sem túmulo e a música como depósito de memória. A presença de um relato de investigação documental numa lista de romances interessa a quem estuda as fronteiras de gênero que os prêmios aceitam. Fonte

Anne Godard, Nous aussi

Actes Sud, 2026.

Terceiro romance de Godard, passado na alta burguesia parisiense: uma família que vive num mesmo prédio de bairro nobre e passa os verões num casarão nos Alpes chamado de Château. Segundo o La Libre Belgique, nas duzentas primeiras páginas a autora não escreve uma vez “eu”; a narração dissolve o indivíduo num “on” coletivo e prende-o ao clã e à sua máquina de transmitir patrimônio e normas. O jornal belga classificou o livro de “magistral” e destacou os capítulos curtos e a escrita lapidar. No título da resenha, o jornal resume o livro como a exposição da mecânica de um “entre-soi” sufocante, o fechamento de um grupo social em si mesmo. Fonte

Olivier Grondeau, Joseph dans la nuit

L’Iconoclaste, 2026.

Preso no Irã em 12 de outubro de 2022, Grondeau passou 887 dias na prisão até ser libertado em 17 de março de 2025. O livro trata dos 72 dias de custódia sob a autoridade do Ministério da Inteligência iraniano, com interrogatórios, medo e a resistência interior sustentada por sonhos, companheiros de cela e pela poesia de Hafez. A ActuaLitté destacou a maneira como o texto torna sensível a lógica do arbitrário. Com ele, o testemunho de um ex-refém entra numa seleção de romances. Fonte

Yannick Haenel, La solitude des professeurs est infinie

Gallimard, 2026.

Haenel foi professor de francês por quinze anos na periferia de Paris, e o romance segue seu duplo literário, Jean Deichel, jovem professor num colégio de Mantes-la-Jolie no início dos anos 1990, do entusiasmo à depressão. A franceinfo leu uma “epopeia abrasiva” sobre o ofício docente e uma ode à literatura e à transmissão. Num trecho citado pela emissora, o professor insiste, contra o inspetor, em dar Duras, Kafka, Stevenson, Flaubert e autores vivos como Pierre Michon e Annie Ernaux. A cena põe dentro da ficção a disputa sobre o que se lê na escola, tema próximo de quem estuda cânone. Fonte

Lilia Hassaine, Je

Gallimard, 2026.

Quarto romance de Hassaine, retoma Jane Eyre, de Charlotte Brontë, do ponto de vista de Bertha Antoinette Rochester, a primeira mulher de Mr. Rochester, trancada num sótão por sua suposta loucura. Segundo a RFI, a personagem deixa de ser algoz para ser vítima de um homem violento e manipulador. Em entrevista à emissora, a autora disse ter partido de uma história pessoal e preferido mostrar o que há de invariável nas violências de gênero a escrever um testemunho. A reescrita de um clássico a partir de sua personagem marginal é o ponto que interessa à discussão sobre cânone. Fonte

Philippe Jaenada, L’inconnue du Quai de Javel

Flammarion, 2026.

Vencedor do Femina em 2017 com La Serpe, Jaenada volta ao fait divers com a investigação do assassinato de Louise Cansot, modelo dos pintores de Montparnasse, encontrada estrangulada no cais de Javel, em Paris, na noite de 6 para 7 de setembro de 1949. O criminoso nunca foi preso. A franceinfo conta que o autor reconstrói o destino da jovem bretã que chegou a Paris aos 16 anos para trabalhar como empregada e recorre a Maigret, o comissário de Simenon, como contraponto ficcional à polícia real. A emissora situa o livro na veia de crimes a elucidar que o autor explora desde La Serpe. Fonte

Jean-Yves Jouannais, Une forêt

Albin Michel, 2026.

Livro curto, de 110 páginas, passado na Alemanha derrotada de 1947, sobretudo em Bremen: os mainás de uma floresta passaram a transmitir entre si a melodia de um hino nazista, e a desnazificação precisa decidir o que fazer com eles. A resenha da En attendant Nadeau trata a premissa como absurda na aparência e séria nos dilemas, comparável aos casos que juristas discutem com argumentos reais. O livro saiu no início do ano: a revista o resenhou em fevereiro, meses antes da rentrée de setembro. Fonte

Emma Marsantes, N’efface pas mes cercles

Verdier, 2026.

Em 1980, uma mulher se suicida num apartamento abastado; a partir desse fato, uma narradora remonta a história da família por várias décadas. Segundo a resenha do Cult.news, patriarcado, guerra, colonização, incesto e violência sexual passam pelos corpos, casamentos e silêncios das personagens. O site destaca a recusa dos efeitos da grande saga familiar, com escrita seca e sem revelações finais, e adverte que essa confiança no leitor pode tornar o livro exigente. Fonte

Clémentine Mélois, Choses que je croyais perdues

L’Arbalète/Gallimard, 2026.

Durante dois dias e uma noite, Émilie, professora de gravura recém-separada, embala os objetos do apartamento que dividia com Tristan, e cada um deles abre um fragmento de memória. A franceinfo apresenta Mélois como escritora e artista plástica em busca constante de pesquisa formal, e lembra que em 2024 ela publicou Alors c’est bien, sobre a morte do pai. A emissora descreve um romance de fantasia sobre a ruptura amorosa e a memória dos objetos. O inventário de objetos como estrutura narrativa é o dado formal que a franceinfo associa à pesquisa da autora. Fonte

Sylvain Prudhomme, De l’autre côté du lac

Minuit, 2026.

Depois de Coyote (2024), Prudhomme escreve sobre Paola, fotógrafa que explora a reserva florestal de um lago remoto dos Alpes, convive com arqueólogos num sítio neolítico e desaparece depois que o corpo de um alpinista é encontrado. A franceinfo leu um romance atmosférico, na fronteira do policial, sobre a tentação da vida selvagem longe das cidades conectadas. O livro sai pela Minuit, a mesma editora de La maison vide, de Laurent Mauvignier, vencedor do Goncourt de 2025. Fonte

Olivier Rolin, La Guerre éternelle

Gallimard, 2026.

Rolin parte de Troia rumo a Gaza, Sarajevo e Mariupol, convencido, como escreve, de que “a guerra de Troia é a mãe de todas as guerras”. Para a franceinfo, o livro é ao mesmo tempo história, mitologia e diário de viajante, e passa por episódios como o massacre de Nanquim, em 1937, lido como réplica moderna da queda de Troia. A emissora situa o livro numa onda de releituras de Homero que inclui Giraudoux e Pierre Michon. A presença de um texto híbrido entre ensaio e relato de viagem testa os limites do que o júri aceita como romance. Fonte

Patrice Trigano, Bataille au procès

Maurice Nadeau, 2026.

Livro de 140 páginas sobre o processo contra o editor Jean-Jacques Pauvert, acusado em 1956 por publicar o Marquês de Sade, com Georges Bataille como personagem principal e o advogado Maurice Garçon em cena. A L’Express admitiu que o título tinha escapado à crítica antes do anúncio e, depois de lê-lo, julgou-o interessante para a história literária, mas dispensável numa rentrée de boa safra. O caso interessa a quem estuda como uma lista de prêmio pode lançar um livro que a crítica ainda não tinha notado. Fonte