Cânones da crítica internacional UFES · Departamento de Letras · T01 · 2026/2

00Edição zero · agosto a dezembro de 2026

Prêmios · Itália

Premio Strega 2026

Michele Mari venceu a 80ª edição do Strega com I convitati di pietra, romance sobre ex-colegas de escola presos a um pacto de sobrevivência. Uma regra para editoras independentes levou a final a seis livros.

Sestina anunciada em 03/06 · vencedor proclamado em 08/07 · lista oficial

O Strega foi fundado em 1947 por Maria Bellonci e Guido Alberti, fabricante do licor de Benevento que dá nome ao prêmio, e hoje é organizado pela Fondazione Maria e Goffredo Bellonci; o primeiro vencedor foi Ennio Flaiano, com Tempo di uccidere. O núcleo do júri continua a ser o dos Amici della Domenica, cerca de 460 escritores, críticos, jornalistas, tradutores e editores, e em 2026 o colégio chegou a 800 votantes. Dos 79 livros propostos, o comitê diretivo escolheu doze, e a votação de 3 de junho, no Teatro Romano de Benevento, com 677 votos, definiu os finalistas. A final teve seis títulos porque o artigo 7 do regulamento manda incluir o independente mais votado quando nenhum livro de editora média ou pequena aparece entre os cinco primeiros, o que levou Vedove di Camus, da L’Orma, à disputa. Na votação final, em 8 de julho, pela primeira vez na Piazza del Campidoglio, em Roma, Mari teve 190 dos 643 votos, e a Einaudi chegou, segundo o Corriere, a 17 vitórias em 80 anos de prêmio. A ordem abaixo segue a votação final.

Finalistas

Michele Mari, I convitati di pietra

Einaudi, 2025.

[Vencedor]

Depois do exame de conclusão do ensino médio, os ex-alunos da turma III A assinam um “pacto sciagurato”, um pacto desgraçado, que os prende até o último dia e vira, décadas depois, uma disputa para ver quem sobrevive mais. O psicanalista Vittorio Lingiardi, que propôs o livro, chamou-o de “romance negro” que zomba do tempo que passa e de livro “cômico e coral que teria agradado a Carlo Emilio Gadda”, e destacou o jogo com as palavras, a começar pelos sobrenomes da chamada. O romance também levou o Strega Giovani. Segundo o Corriere, a vitória veio apesar da polêmica sobre comentários de Mari a respeito de Michela Murgia, divulgados pela finalista Teresa Ciabatti. Fonte

Matteo Nucci, Platone. Una storia d’amore

Feltrinelli, 2025.

O romance reconstitui a vida de Platão a partir de uma manhã de 415 a.C., quando ele tem doze anos e ainda se chama Arístocles, e segue o encontro com Sócrates, a condenação do mestre e as viagens a Cirene e ao Egito. A apresentação oficial dá ao eros, o amor sensual e o amor como paixão, o papel de fio da biografia. O livro foi proposto pelo escritor e magistrado Giancarlo De Cataldo. Ficou em segundo lugar, com 152 votos, também segundo na primeira votação. Fonte

Bianca Pitzorno, La sonnambula

Bompiani, 2026.

Ofelia Rossi, que desde menina desmaia e acorda com presságios, foge de um casamento perigoso e se estabelece numa cidade da Sardenha como “rinomata sonnambula”, cobrando cinco liras por vaticínio. A apresentação oficial diz que Pitzorno partiu de um recorte de jornal do fim do século XIX e mistura o romance de aventura e de amor com o gótico e o picaresco. Roberta Mazzanti, que propôs o livro, pediu ao leitor que não se pergunte a que gênero ele pertence e destacou o equilíbrio entre realidade e invenção. Teve 84 votos na final. Fonte

Alcide Pierantozzi, Lo sbilico

Einaudi, 2025.

O livro narra a doença mental por dentro, a partir do momento em que a realidade se desfaz e deixa entrar a alucinação. A romancista Donatella Di Pietrantonio, que o propôs, definiu o “sbilico” como “o ponto de ruptura da mente” e escreveu que só quem sentiu esse limite ceder pode lhe dar voz com os instrumentos da literatura. Ela destacou ainda a língua de palavras inventadas do autor. Teve 78 votos na final. Fonte

Teresa Ciabatti, Donnaregina

Mondadori, 2025.

Uma escritora acostumada a entrevistar adolescentes e artistas recebe de um jornal a tarefa de entrevistar ‘o Nasone, chefão acusado de 182 homicídios, e a conversa desloca-se do crime para a relação de ambos com os filhos. Na reta final, a protagonista procura em Nápoles os rastros do filho do mafioso e percebe que procura a própria filha. O livro foi proposto por Roberto Saviano, que destacou a capacidade da autora de narrar o interior das existências. Teve 75 votos na final. Fonte

Elena Rui, Vedove di Camus

L’Orma, 2025.

O romance parte do acidente de 4 de janeiro de 1960, em que Albert Camus morreu no carro dirigido pelo editor Michel Gallimard, e acompanha quatro mulheres ligadas a ele: a esposa Francine Faure, a atriz Catherine Sellers, a pintora Mette Ivers e a atriz Maria Casarès. A escritora Lisa Ginzburg, que propôs o livro, descreveu uma partitura a quatro vozes baseada em manuscritos e cartas guardados na Bibliothèque nationale de France e reinventados pela ficção. Entrou na final pela regra das editoras independentes e teve 64 votos. Fonte