Cânones da crítica internacional UFES · Departamento de Letras · T01 · 2026/2

00Edição zero · agosto a dezembro de 2026

Prêmios · Nova Zelândia

Ockham New Zealand Book Awards 2026: Jann Medlicott Acorn Prize for Fiction

O prêmio de ficção mais bem pago da Nova Zelândia foi para All Her Lives, coletânea de contos de estreia de Ingrid Horrocks. Era a lista de quatro finalistas em que Catherine Chidgey disputava um terceiro troféu.

Shortlist anunciada em 04/03 · vencedora anunciada em 13/05 · lista oficial

Os Ockham New Zealand Book Awards, organizados pelo New Zealand Book Awards Trust, premiam livros de autores neozelandeses nas categorias de ficção, poesia, não ficção ilustrada e não ficção geral, além de um prêmio para obras em língua maori e de prêmios para primeiros livros. A categoria de ficção, o Jann Medlicott Acorn Prize, paga 65 mil dólares neozelandeses, a maior soma literária do país segundo o Guardian; as outras categorias pagam 12 mil. A shortlist de 2026 saiu de uma lista longa divulgada em janeiro, e o júri de ficção, coordenado pelo escritor Craig Cliff, teve Leslie Hurtig como jurada internacional convidada; o Newsroom dedicou uma reportagem ao fato de a decisão depender do voto desse jurado de fora. Os quatro livros saíram por uma editora universitária (Te Herenga Waka, com dois títulos) ou por pequenas independentes (Āporo e Ugly Hill), e a vencedora foi uma coletânea de contos, só a quinta a levar o prêmio desde a criação da premiação, 58 anos atrás.

Finalistas

Ingrid Horrocks, All Her Lives

Te Herenga Waka University Press, 2025 (edição australiana pela University of Queensland Press em 2026).

[Vencedor]

São nove contos sobre nove mulheres em fases e gerações distintas, do fim do século XVIII ao presente, da Wairarapa rural a portos noruegueses e à cena rave de Berlim, com passagens pelos protestos contra a turnê dos Springboks em 1981 e uma aparição de Mary Wollstonecraft. Craig Cliff, pelo júri, escreveu que o livro explora as expectativas e as restrições que pesam sobre a condição feminina e que “faíscas de um conto e de uma geração acendem outras” ao longo da coletânea. Ao Guardian, Cliff chamou a prosa de “nítida, clara e desimpedida”. Horrocks vinha da poesia, do ensaio e da memória; é sua estreia na ficção, e a vitória de um livro de contos numa categoria que costuma consagrar romances interessa a quem estuda hierarquia de gêneros nos prêmios. Fonte

Catherine Chidgey, The Book of Guilt

Te Herenga Waka University Press, 2025.

Chidgey, a única autora a vencer o prêmio duas vezes (2017 e 2023), disputava o terceiro. O romance, que ela apresentou como sua primeira incursão na distopia, se passa numa Inglaterra de 1979 em que Hitler foi assassinado em 1943 e a guerra terminou numa paz negociada; trigêmeos de 13 anos vivem num lar infantil do governo, tratados de uma doença que ninguém nomeia, e sonham ser mandados para Margate. A resenha do Guardian elogia o ritmo e as perguntas sobre o poder do Estado de desumanizar, mas conclui que os ecos de Never Let Me Go, de Kazuo Ishiguro, são fortes demais. A edição britânica, pela John Murray, já tinha sido resenhada no Guardian em maio de 2025, de modo que o livro chegou à lista neozelandesa com recepção internacional formada. Fonte

Laura Vincent, Hoods Landing

Āporo Press, 2025.

Romance de estreia de Vincent (Ngāti Māhanga, Ngāpuhi), escritora de culinária, sobre uma família queer e maori numa pequena cidade rural, com cartas de tarô, segredos e muita comida. No Newsroom, a escritora Talia Marshall leu o livro como retrato das famílias queer “escondidas à vista” em lugares pequenos e observou que a identidade maori da família aparece sobretudo no modo de partilhar a comida; seu reparo é que os personagens são adoráveis demais. Segundo a mesma reportagem, o livro esgotou a primeira tiragem antes da indicação. A Āporo Press, de Damien Levi, é descrita pelo Newsroom como “a pequena editora que conseguiu”. Fonte

Sam Mahon, How to Paint a Nude

Ugly Hill Press.

Primeiro romance do artista plástico Mahon, de 72 anos, conhecido por obras de protesto como o busto de um ministro do Meio Ambiente feito de esterco. Em 2011, em Christchurch, dois artistas, “Sambo” e o refugiado bielorrusso Gregor Kerensky, se encontram durante um ano num café e discutem o que é a Arte e para que serve; a política ambiental de Canterbury e os terremotos atravessam a conversa. Claire Mabey, na Spinoff, chamou o livro de “azarão” da lista, notou que quase não havia debate crítico sobre ele quando foi indicado e registrou o incômodo com o olhar masculino sobre as personagens femininas, embora considere a escrita “em geral excelente”. A resenha também aponta a mistura de autobiografia e ficção, com desenhos do próprio autor e uma capa atribuída ao personagem Gregor. Fonte