Nota de sala · 11 de agosto de 2026
Duas palavras, e nenhuma simples
Aula 1. Sala 105 do IC. A pergunta não era “quais escolas vamos estudar”. Era: o que a turma já chama de crítica — e o que isso ainda não dá conta de nomear.
Primeiro encontro da optativa. Roda aberta, apresentações, duas palavras no centro da mesa: cânone e crítica. O professor localizou a disciplina no ensino superior e no ensino básico — para onde muita gente da turma vai. Especialista, neste começo, não é quem tem o diploma: é quem não se confunde no vocabulário de que precisa.
A manhã foi diagnóstico, não recorte literário. Kafka ficou para depois. O que entrou foi o ofício de separar: ideia, conceito, noção, definição não são a mesma coisa. Arte, na agência, pode ser um card do Canva; em Letras, é outra máquina. Sem esse corte, a crítica vira adjetivo de autoajuda.
Selecionar já é criticar. Indicar um livro à turma, escolher um autor para o mestrado, montar uma lista de leitura: cada gesto deixa de fora uma pilha. O cânone, dito com clareza, é convenção de valor — o que a crítica produz e o que a circulação social uniformiza. O melhor romance da vida de alguém não precisa ser canônico; o cânone é o padrão público.
Houve Kant sem seminário de pânico: faculdades do juízo, decisão, crise. Etimologia de trabalho: krínein, separar. Houve IA sem moralina prévia: o corpus humano, o livro destruído para virar treino, a pergunta sobre o que ainda conta como evidência. Fruição não é consumo. Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus ao lado de Clarice: o valor se move, e o trabalho intelectual é justificar o movimento.
Produto da aula: um vocabulário em aberto e uma responsabilidade. A pirâmide de valor não cai pronta do céu. A turma começou a vê-la ser empilhada. Todas as notas de sala →